“Amargo doce que eu sorvo…”

 Hoje de manhã, enquanto eu preparava meu mate (chimarrão para os não iniciados), pensei na real importância que essa bebida tem na minha vida e na de muitos gaúchos. Ela se tornou um importante elo entre pessoas, mas também serve como companheira nas horas de solidão ou reflexão.

 A origem dos termos “mate” e “chimarrão”, como não poderia ser diferente, vem dos índios, mais especificamente da tribo chamada quíchua, que habitou regiões mais ao Sul da América tendo, talvez, também visitado regiões de fronteira do Brasil. Alguns países, como Bolívia e Equador ainda mantém o dialeto ativo. A palavra mate, mais utilizada pelos países de língua espanhola se originou de mati, que significa porongo. Para quem não sabe, o porongo nada mais é do que a cuia, e é uma planta cultivada em várias regiões do país.

Árvore da qual se extrai a matéria-prima da Cuia

 Uma lenda antiga desta tribo conta que um ancião e sua filha, acabaram ficando em uma tapera, durante uma viagem de sua tribo, pois o velho índio não tinha mais condições de seguir viajando. A filha, apesar de triste, ficou ao lado de seu velho pai. Após dias, um pajé aparece e oferece a folha de erva-mate, e ensina-o a preparar a nova bebida. O pajé explica-lhes que ‘Sorvendo essa infusão, terão nessa nova bebida uma nova companhia saudável mesmo nas horas tristonhas da mais cruel solidão’, além de que se sentirão renovados para continuar a viagem.

O velho e bom chimarrão

 E a verdade é essa, por mais estranho que pareça: o mate é uma companhia, um preenchimento e o poeta gaúcho Fabrício Carpinejar define o chimarrão com sua precisão cirúrgica: “Ritual para dentro, da solidão; ritual para fora, da solidariedade”. E é neste ritual pra fora que esta bebida tem um viés agregador. Nada mais aconchegante do que uma roda de chimarrão e, nela, todos os assuntos são bem-vindos.

 A erva-mate, por si só, tem curiosidades suficientes para um post particular. Resumindo, é uma árvore que habita, preferencialmente, a região subtropical da América do Sul e do Brasil. Ela possui várias qualidades terapêuticas, mas não vou entrar neste mérito da questão. Seu nome científico é Ilex Paraguariensis, e deu origem a uma música da banda Engenheiros do Hawaii que reflete, ao meu ver, de forma precisa a sensação e os sentimentos envolvidos e provocados pelo mate.

Árvore de Ilex Paraguariensis/Erva-mate

Pra finalizar, a poesia mais conhecida de todas sobre o Chimarrão, de autoria do poeta, folclorista, historiador e tradicionalista Glaucus Saraiva:

“Amargo doce que eu sorvo
Num beijo em lábios de prata.
Tens o perfume da mata
Molhada pelo sereno.
E a cuia, seio moreno,
Que passa de mão em mão
Traduz, no meu chimarrão,
Em sua simplicidade,
A velha hospitalidade
Da gente do meu rincão.

Trazes à minha lembrança,
Neste teu sabor selvagem,
A mística beberagem,
Do feiticeiro charrua,
E o perfil da lança nua,
Encravada na coxilha,
Apontando firme a trilha,
Por onde rolou a história,
Empoeirada de glórias,
De tradição farroupilha.

Em teus últimos arrancos,
Ao ronco do teu findar,
Ouço um potro a corcovear,
Na imensidão deste pampa,
E em minha mente se estampa,
Reboando nos confins ,
A voz febril dos clarins,
Repinicando: “Avançar”!
E então eu fico a pensar,
Apertando o lábio, assim,
Que o amargo está no fim,
E a seiva forte que eu sinto,
É o sangue de trinta e cinco,
Que volta verde pra mim.”

 Acho que com isso fica claro, bem claro, que o Mate nada mais é do que uma Alquimia, na qual transformamos uma planta em uma bebida, a solidão em companhia, e um simples encontro entre pessoas em uma irmandade.

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 Algumas fontes consultadas onde pode-se encontrar mais informações sobre o mate:

Chimarrão: http://www.paginadogaucho.com.br/poes/chim.htm

Os Mandamentos do Mate: http://www.chimarrao.com.br/Mandamentos.html 

Algumas curiosidades: http://www.chimarrao.com.br/Curiosidades.html 

Mais informações: http://grem.io/4Qn   http://grem.io/4Qp   http://grem.io/4Qq

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Uma nova perspectiva…

 Eu já tive um outro blog. Na verdade eu ainda tenho (alquimistadeideias.blogspot.com), mas resolvi criar esse novo, pois pretendo dar uma abordagem diferente daquele, apesar do nome ser o mesmo.

 Neste novo blog, quero falar de coisas que eu gosto, de uma forma geral: cinema, música, livros… Pretendo dar dicas de livros e CDs que eu esteja lendo/ouvindo, além de filmes que eu tenha visto há pouco ou há muito tempo mas que, conforme forem surgindo na lembrança eu irei postando por aqui.

 Espero que alguém se interesse e resolva acessar e comentar a respeito das minhas indicações.

 Até porque, o que somos além daquilo que lemos, ouvimos, vemos e sentimos?

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